Cacilhas
Falham-me os dedos ao escrever. Perco a cada dia que passa
a firmeza e a força para segurar o lápis. Escorrega-me quando tento guardar em
letras as memórias que o meu cérebro ainda regista. Um dia também isso se
perderá, como tudo o resto se perdeu.
Por vezes, é necessária a morte para purgar a alma dos que
ficam e dos que partem.
A minha neta veio visitar-me ontem. Dizem-me. Não o
recordo. Linda, nas suas feições seguras e de traços bem delineados. O queixo
quadrangular, os olhos perscrutadores. Vejo-a assim, como em criança, calada e
observadora. Os olhos são os da avó, que me olham por dentro como nenhuns
outros. A cara igual. Não sei já qual recordo, se uma, se outra. Provavelmente
apenas a avó Maria, a minha querida Maria. Também ela se perdeu. Primeiro de
mim. Depois da vida. Já tudo se perdeu. Sobram apenas as memórias que
teimosamente tento registar no papel, como se isso fosse o único motivo que me
prendesse à vida. Ao que resta da minha vida. Como que uma missão. Depois vêm
as auxiliares tirar-me os papéis, ler o que escrevo. Abanam a cabeça
tristemente, como se todo o meu esforço fosse em vão. Dizem que não escrevo
nada. Palavras soltas, sem sentido. O meu pai. O meu filho. Sempre presentes,
sempre constantes nos meus dissertares, e elas não os lêem, não os vêem, não os
sentem. Não entendem. O lápis cai ao chão, leve como uma pena, voa-me dos dedos
com um sopro mais forte de uma memória mais densa. Sempre preferi o traço do
lápis, mais suave, mais imperceptível, mais susceptível de se apagar e se perder
no rasto do tempo. Há palavras que mais vale que se percam no tempo, no fundo
das memórias. O lápis cai ao chão. Por hoje não escrevo mais.
