20 November 2015

memórias

Cacilhas



Falham-me os dedos ao escrever. Perco a cada dia que passa a firmeza e a força para segurar o lápis. Escorrega-me quando tento guardar em letras as memórias que o meu cérebro ainda regista. Um dia também isso se perderá, como tudo o resto se perdeu.

Por vezes, é necessária a morte para purgar a alma dos que ficam e dos que partem.

A minha neta veio visitar-me ontem. Dizem-me. Não o recordo. Linda, nas suas feições seguras e de traços bem delineados. O queixo quadrangular, os olhos perscrutadores. Vejo-a assim, como em criança, calada e observadora. Os olhos são os da avó, que me olham por dentro como nenhuns outros. A cara igual. Não sei já qual recordo, se uma, se outra. Provavelmente apenas a avó Maria, a minha querida Maria. Também ela se perdeu. Primeiro de mim. Depois da vida. Já tudo se perdeu. Sobram apenas as memórias que teimosamente tento registar no papel, como se isso fosse o único motivo que me prendesse à vida. Ao que resta da minha vida. Como que uma missão. Depois vêm as auxiliares tirar-me os papéis, ler o que escrevo. Abanam a cabeça tristemente, como se todo o meu esforço fosse em vão. Dizem que não escrevo nada. Palavras soltas, sem sentido. O meu pai. O meu filho. Sempre presentes, sempre constantes nos meus dissertares, e elas não os lêem, não os vêem, não os sentem. Não entendem. O lápis cai ao chão, leve como uma pena, voa-me dos dedos com um sopro mais forte de uma memória mais densa. Sempre preferi o traço do lápis, mais suave, mais imperceptível, mais susceptível de se apagar e se perder no rasto do tempo. Há palavras que mais vale que se percam no tempo, no fundo das memórias. O lápis cai ao chão. Por hoje não escrevo mais.