10 December 2015

o velho damião

Sintra


A porta ao lado, a outra parte da casa, estava fechada desde a morte do velho Damião, e ninguém mais se lembrava dele. Mesmo Bárbara, só se lembrava quando estendia a roupa na corda que ficava no meio do pátio traseiro. Era ela, por acordo estipulado no contrato verbal de arrendamento, quem lavava e estendia a roupa do velho. Agora tinha menos trabalho. A renda, a parte monetária, continuava a guardá-la no cofre de madeira, uma singela caixa com fechadura em forma de ampulheta, tal como o fizera todos os meses antes. O velho Damião não tinha conta no banco, nem sabia bem o que isso era. Então queria que Bárbara usasse o cofre para guardar o dinheiro que um dia seria do neto. E Bárbara assim o fizera. De tempos a tempos, o velho pedia para ver o cofre e levava uma hora a contar o dinheiro. De tempos a tempos, Bárbara ia à cidade e trocava as muitas notas por quantidades mais pequenas. Depois, levava muitas horas a explicar ao velho Damião que o valor era o mesmo, mas assim cabia tudo no mesmo cofre. E o velho, levava muitos dias a acreditar.