02 October 2015

tempo

Cais do Sodré - Lisboa


Os passos ecoavam no caminho silencioso. Um arrastar lento, e cansado, na gravilha e folhas secas do chão. Parou junto ao banco de pedra e contemplou a paisagem em redor. O céu estava fechado, cinza com o aproximar da tempestade. Os pássaros voavam de regresso aos seus ninhos, emitindo sons de chamada e alerta. Sentou-se. Puxou da sua velha cigarreira e tirou um cigarro. Do outro bolso, tirou uma pequena caixa de fósforos. Uma, duas tentativas. A chama emitia uma luz ténue e ele deteve-se um instante a observá-la. O vento soprou mais forte e apagou-a. Um esgar e um sorriso amargo no canto da boca. Acendeu outro. Inspirou fundo e deliciou-se com aquele cigarro, como se fosse o último. A trovoada ao longe fazia-se ouvir. Do céu mais escuro, caíam as primeiras gotas. Já não se ouviam pássaros, já não se ouvia nada. Um trovão forte fez estremecê-lo. A chuva caía agora com intensidade, formando pequenas poças na terra molhada. As árvores agitavam-se ao vento forte da tempestade. Era altura de regressar. Apagou o cigarro com pé. Voltaria mais tarde, quando houvesse sol, se o tempo o permitisse. Se ainda houvesse tempo.