Cais do Sodré - Lisboa
Os passos ecoavam no caminho silencioso. Um arrastar lento, e
cansado, na gravilha e folhas secas do chão. Parou junto ao banco de pedra e
contemplou a paisagem em redor. O céu estava fechado, cinza com o aproximar da
tempestade. Os pássaros voavam de regresso aos seus ninhos, emitindo sons de
chamada e alerta. Sentou-se. Puxou da sua velha cigarreira e tirou um cigarro.
Do outro bolso, tirou uma pequena caixa de fósforos. Uma, duas tentativas. A
chama emitia uma luz ténue e ele deteve-se um instante a observá-la. O vento
soprou mais forte e apagou-a. Um esgar e um sorriso amargo no canto da boca.
Acendeu outro. Inspirou fundo e deliciou-se com aquele cigarro, como se fosse o
último. A trovoada ao longe fazia-se ouvir. Do céu mais escuro, caíam as
primeiras gotas. Já não se ouviam pássaros, já não se ouvia nada. Um trovão
forte fez estremecê-lo. A chuva caía agora com intensidade, formando pequenas
poças na terra molhada. As árvores agitavam-se ao vento forte da tempestade.
Era altura de regressar. Apagou o cigarro com pé. Voltaria mais tarde, quando
houvesse sol, se o tempo o permitisse. Se ainda houvesse tempo.
